sexta-feira, 18 de novembro de 2022

This Is Us - Olhando para o passado e ressignificando no presente

A aclamada série This is Us pode trazer boas reflexões sobre as nossas relações



A série This is Us vem fazendo sucesso mundial desde 2016, quando estreou no canal NBC, dos Estados Unidos. A última temporada foi exibida no dia 24 de maio deste ano, após 6 temporadas aclamadas. Recentemente, voltou à cena estreando na TV aberta. 

Agora, mais pessoas serão tocadas pelos dramas e conflitos da família Pearson, que têm a história descrita sempre na perspectiva de três tempos diferentes. 

Ao longo da série, os espectadores serão tocados por vários temas atuais, contando com alternância das perspectivas entre os membros da família. Desta forma, a série permite que o espectador acompanhe o desenrolar de cada personagem e a forma como as vivências do passado de cada um vai afetando o presente e até mesmo o futuro deles.


This is Us e a família comum


Talvez o que mais aproxime as pessoas desta série é a forma como ela retrata as questões e dramas do cotidiano de uma família comum. Nada de “família margarina” por aqui. Todos os personagens de This Is Us passam por altos e baixos e expõem seus dramas pessoais e familiares o tempo todo. 

Um casal com muitas diferenças se une e busca construir uma família com filhos. E nesta história de ganhos, perdas, doenças, saúde, exclusão, inclusão, união, separação, várias dicotomias vão se apresentando no caminho.


O perigo da perfeição


O destaque vai para o personagem que parece ser o mais bem resolvido, mas também é o que traz fantasmas bem complexos: Randall, o filho que foi adotado logo na maternidade. É o que mantém a relação de família mais bem construída, com a namorada que conhece desde a juventude. 

Ambos constroem juntos uma família com diversidade e aceitação. Randall aparenta ser o mais ponderado e prestativo, sempre disposto a ajudar. No entanto, ao longo da série, vamos percebendo as nuances deste personagem. Ele vai em busca da família de origem? Sente falta dela apesar de ter sido adotado ainda bebê? 

É interessante refletir sobre a postura de perfeição que ele carrega e o peso que isto traz ao personagem. Aos poucos, Randall vai se mostrando frágil e vulnerável como os outros personagens de This Is Us e tem a oportunidade de atravessar grandes desafios sempre contando com a ajuda da mulher incrível ao lado dele. 


Olhando para o passado e entendendo o futuro


A ideia da série de transitar pelo tempo dos personagens em etapas diferentes da vida é um dos fatores que torna This is Us tão interessante. Com isso, acompanhamos o drama de um personagem do início ao fim em alguns momentos em um mesmo episódio. 

No presente, é possível ir traçando a linha do tempo junto ao apresentado na série e com isso entendendo melhor certos padrões de comportamentos e atitudes que ocorrem no momento atual.

Temas complexos como a morte de um filho, adoção, morte do cônjuge, ausência do pai, conflitos com a mãe, relação entre irmãos, autoestima, e o impacto das doenças na família são visitados pela série. 

Ao acompanhar a família Pearson, vamos compreendendo como cada acontecimento vai moldando cada um dos personagens de forma singular. E isso nos traz reflexões para nossos próprios padrões familiares.


Traumas que marcam uma vida


A morte de um membro querido sempre é marcante, bem como as separações, exclusões e rompimentos. Os personagens passam por alguns lutos ao longo da série. Isto nos faz refletir o quanto somos marcados por acontecimentos traumáticos do passado ou mesmo no presente. 

É importante reconhecer as marcas e o efeito que elas provocam. Alguns, inclusive, com sintomas físicos. Em This is Us, os personagens buscam o apoio sempre dentro da família e com as pessoas próximas. 

No entanto, é importante saber o momento certo de buscar ajuda profissional. Mesmo que racionalmente seja possível entender o que ocorreu, o corpo pode guardar as marcas e manifestar as emoções escondidas no inconsciente.


Refletindo sobre nossa própria história


Na visão sistêmica, percebemos muito constantemente processos repetitivos nas famílias. Fatos positivos ou negativos são re-vivenciados em nossa história e com isso temos a chance de ressignificá-los, caso sejam muito dolorosos. 

Alguns acontecimentos da infância certamente podem marcar toda uma jornada. Porém, a vida também traz oportunidades para que, ao topar com os fantasmas do passado, seja possível fazer uma releitura do que ocorreu e até mesmo dar um novo significado. 

Todos os personagens de This Is Us vão enfrentar seus fantasmas em algum momento. É bonito perceber como cada um vai encontrando o recurso necessário para superar os desafios. Se há algo em comum entre eles, são os relacionamentos que cultivam ao longo da vida. 

Dentro da nossa realidade, é de extrema importância perceber as repetições. São elas que sinalizam que algo precisa ser ajustado na postura interna. A mesma forma de se relacionar e o mesmo padrão de comportamento, por exemplo, podem ser sinais de que estamos sendo leais a algo do nosso sistema familiar. 

Uma psicoterapia com a visão sistêmica ou a utilização de técnicas como a constelação familiar podem ajudar a trazer para a consciência o que de outra forma não seria percebido. Afinal, não assistimos à nossa vida passar diante da TV para ter clareza do que se passa em nosso íntimo. Com os personagens é sempre mais fácil. 


A importância das relações


Os protagonistas, a família Pearson, têm histórias tocantes. No entanto, nenhuma delas seria possível sem os “coadjuvantes”. A série é plena em mostrar a importância de se manter boas relações durante a vida. Seja dentro da família, pais, irmãos, mas também os amores e amizades. 

É lindo como todos ao redor se tornam recursos para nosso protagonistas em muitos momentos avançarem e superarem os desafios. Isso só reforça a importância de cultivarmos relações saudáveis e termos por perto pessoas nas quais podemos confiar. 

Mesmo dentro da família de origem, com os desafios e conflitos enfrentados, todos acabam encontrando uma maneira de se reconectar e olhar para o essencial. Deixam de lado as diferenças de opinião e passam a respeitar a forma que cada um adota de ver a vida. 

Este certamente é um grande exercício para todos no cotidiano. Olhar para o que é essencial, o que realmente importa naquela relação, e utilizar as diferenças para somar e crescer e não para subtrair algo do relacionamento. 

Que a possibilidade de acompanhar uma série sobre a família seja uma oportunidade de refletirmos sobre as escolhas do dia a dia e como nutrimos diariamente nossas próprias relações. 


Publicado originalmente em www.personare.com.br



sexta-feira, 4 de novembro de 2022

AUSÊNCIA MATERNA: COMO LIDAR?

 Embora seja difícil, é possível encarar a ausência materna e ir ao encontro do nosso próprio resgate



A ausência materna sendo ela por morte ou não, deixa marcas, pois mexe com o sentimento de não ter por perto a pessoa mais importante da sua história. Afinal, a vida veio através da mãe e a ausência dela gera medos, inseguranças, carências, além de outras dificuldades na vida pessoal e profissional. 


Mas será que há uma saída para lidar com a ausência materna? Como conviver com essa sensação de abandono? Será que ela é mesmo real?


Entenda como um olhar mais sistêmico pode lhe auxiliar a compreender e lidar com essa sensação e te liberar para um caminho mais leve diante da vida.


Ausência Materna: a importância da mãe na vida de cada um


Os pais que não se ofendam, mas é fato que a mãe é a primeira pessoa mais importante da nossa existência. Porém, para gerar a vida, é preciso do homem e da mulher, então o pai entra com 50% da função essencial. 


No entanto, apenas a mãe é suficiente para que esta vida se mantenha nos meses iniciais. Ela gera e dá a nutrição essencial nos primeiros meses de vida e, por isso, os bebês precisam tanto das mamães. 


Se por qualquer razão esta mãe se ausentar fisicamente, a criança sentirá sua falta. Mesmo que suas necessidades sejam preenchidas, e que ela seja muito amada, a ausência materna será sentida e, certamente, levada para a vida adulta.


É na relação com a mãe que primariamente aprendemos a nos relacionar com os outros. O quanto essa relação transmite confiança e segurança é a medida que iremos também nos sentir seguros para confiar nos outros. Não é o único fator, mas é de grande relevância.


Até mesmo a relação com o trabalho passa pelo vínculo com a mãe. Pelas mesmas razões anteriores, se nos sentimos validados e reconhecidos pela mamãe, certamente faremos escolhas profissionais mais conectadas com a nossa essência e estaremos mais abertos a servir a vida e permitir que o fluxo de abundância ocorra naturalmente.


Presença física não significa entrega


Embora a mãe seja a pessoa mais importante para o nosso desenvolvimento, isso não lhe tira a imperfeição. Antes de ser mãe, ela é uma mulher comum que também é filha. A mãe carrega uma história pregressa ao nascimento dos filhos e ela leva isso junto em suas relações de família. 


Assim, pode ser que a mãe não consiga estar disponível para os filhos. Ela está presente, mas geralmente há uma queixa de que ela não age como uma mãe deveria, e talvez até nem ame da forma ideal.


De fato, há muitos fatores pelos quais uma mãe pode se ausentar, como alguma doença que a incapacite física ou emocionalmente. Pode ser ainda que ela esteja muito emaranhada em sua família de origem e ainda ligada a parceiros anteriores, o que impede a sua real presença e cuidado com o filho.  


Mas seja qual for a razão para os filhos, nada justifica, pois certamente a criança vai sentir os efeitos do que se passa com sua mamãe. Porém, o problema torna-se interminável quando o adulto ainda têm exigências com sua mãe. E logo veremos os efeitos desta postura.


Ausência materna por morte


Chegamos à ausência que parece inevitável. A morte é o fim da vida, então, a ausência materna passa a ser uma constante. Mesmo sabendo que a morte é o curso natural do ciclo de vida ela ainda é temida e mal falada. 


Até para se referir à morte é comum as pessoas usarem o “perdi” minha mãe. Como se o fato dela ter morrido é responsabilidade nossa. O termo morte me parece bem menos cruel neste caso, mas dizer “minha mãe morreu” parece muito definitivo para alguns.


Vou comentar uma experiência pessoal: minha mãe faleceu em 2010. Ela me viu casar, mas não esteve presente fisicamente no nascimento de minhas filhas. Por algum tempo, vivi a ausência materna. 


Com isso, sentia os efeitos desta postura na minha vida pessoal, familiar e profissional. Conflitos desnecessários com minha filha ocorriam e não conseguia alavancar minha carreira. Só consegui me encher de sua presença quando ajustei minha postura interna com a ajuda da filosofia sistêmica e da constelação familiar. Aí sim, a vida começou a fluir em todas as áreas.


O peso interminável de permanecer com a ausência


São inúmeros os efeitos de permanecer na ausência. Se você está conectada com a ausência materna, fica conectada com a morte. Você se retira da vida sem perceber. Pode evitar relacionamentos ou boicotar os que já existem. 


Cada vez que alguém sai da sua vida é um sofrimento interminável e desproporcional. Deixa de confiar nas pessoas, pois tem medo que elas te deixem também. O trabalho e outras coisas importantes para sua vida podem perder o sentido. 


Desta forma, essa postura voltada para o menos pode gerar perda de dinheiro ou até mesmo danos à saúde. Fora que outras pessoas ainda podem sentir o efeito junto, pois você pode se afastar emocionalmente do cônjuge ou dos filhos, ou eles de você. 


Além disso, seus filhos podem começar a apresentar sintomas de ordem física ou emocional como forma de manter você na vida.


Como seguir em frente?


Para seguir em frente, é preciso colocar algumas coisas no lugar. Em caso de ausência materna por morte, o luto precisa ser vivido. Não adianta evitar a dor, pois certamente pode gerar mais sofrimento e até traumas que ficam no corpo. 


Sendo assim, se permita sentir a dor com consciência e, junto com ela, outros sentimentos que vão surgir como raiva e tristeza. Deixar que as crianças participem do processo é essencial.


Aos poucos, procure lembrar do que foi vivido juntos. Mesmo que ainda gere tristeza, parar de falar sobre o assunto como se a morte fosse um tabu é excluir a mãe do seu sistema. Os mortos querem ser lembrados, mas também deixados em paz.


Lembrar não é lamentar. É saber que a mãe cumpriu seu papel e completou seu destino do jeito que foi possível. Ao olhar no espelho, você a enxerga atrás de seus olhos e continua viva e presente dentro de você. 


E ela se alegra se você seguir em frente e honrá-la, fazendo de sua vida algo bom. Que legado você está deixando? É nele que a sua mãe vai se perpetuar, assim como você futuramente.


Não importa como foi essa mãe, se foi boa ou ruim. Esses rótulos só servem como pesos que nos impedem de caminhar. Ela foi suficiente e isso basta para você fazer o melhor que puder com a vida que lhe foi dada. 


Ela pode não estar ao seu lado fisicamente, mas a presença dela é inevitável em tudo que você é e faz. Então, o que lhe resta é cuidar bem da filha ou filho dela, Você!


Maria Cristina Gomes

Psicóloga

mariacristinapsi@yahoo.com.br


Texto originalmente publicado em www.personare.com.br 

SAÚDE MENTAL: COMO SABER SE A MINHA ESTÁ EM EQUILÍBRIO?

Saiba quais são os indicadores de alerta que é hora de cuidar da sua saúde mental.



Saber se a saúde mental está em equilíbrio tem sido uma dúvida cada vez mais comum. Afinal, a vida precisa ser vivida com leveza e, para isso, precisamos nos sentir bem emocionalmente. 


Mesmo diante de problemas e desafios da vida é possível manter a estabilidade e lidar com as dificuldades dentro do possível. Assim, os excessos emocionais podem indicar, junto a outros fatores, que algo não vai bem com sua saúde mental e talvez esteja na hora de procurar uma ajuda profissional.


A seguir, vamos falar sobre os possíveis indicadores que sua saúde mental não está bem, e como fazer para reestabelecer o equilíbrio. Quer saber mais? Confira tudo! 


Saúde mental: indicadores físicos


Fique atenta (o) se você vive em volta de sintomas. Quando um sintoma vai dando lugar a outro é um alerta de seu corpo que algo precisa de atenção. A grande maioria dos sintomas tem raiz emocional e, aqueles que não tem, podem se relacionar a traumas vividos ao longo da vida, e que ficam registrados no corpo.


No caso de questões somáticas advindas de traumas, o ideal é buscar um profissional específico da área. Muitos acreditam que precisam conviver com dores crônicas ou sintomas repetitivos e isso vai gerando um turbilhão de sentimentos relacionados à impotência de se fazer algo a respeito. Com isso, a saúde mental é prejudicada por algo que precisa ser trabalhado e liberado no corpo.


Você sabia que até o excesso de cansaço físico e mental pode ser resultado de questões de desordem sistêmica onde você assume papéis e lugares que não são seus? Mesmo quem trabalha muitas horas seguidas pode terminar o dia mais leve se estiver exercendo apenas a sua função, sem se emaranhar em problemas alheios.


Indicadores emocionais


Nenhum sentimento em excesso é natural. Todo o excesso implica uma falta. Viver em estado constante de tristeza, raiva e medo é um alerta de que, provavelmente, a sua saúde mental não está em equilíbrio.


Contudo, é importante lembrar que todos os sentimentos fazem parte da existência como humanos. Por isso, eles devem ser acolhidos e vividos quando surgem. Agora, se todos os dias a tristeza te acompanha, assim como os pensamentos negativos, gerando dores e sintomas, já passou da hora de buscar ajuda. Isso vale para qualquer emoção. 


É bom ficar atenta (o) ao que as pessoas a sua volta dizem se te veem frequentemente triste ou com raiva. Perceber se faz sentido e reconhecer o excesso de sentimentos é o primeiro passo para a cura.


Indicadores comportamentais


Perceba como age diante da vida, nas relações pessoais e familiares. Comportamentos impulsivos, junto ao excesso emocional, vão indicar que a saúde mental pode não estar bem. 


Brigas constantes e agressividade gratuita precisam ser percebidos e investigados. No outro extremo, se isolar do contato social e evitar vivenciar situações prazerosas e divertidas também são sinais de alerta.


Torna-se importante esclarecer que nada disso é bom ou ruim, certo ou errado. Sair destes rótulos é essencial para que o primeiro passo seja acolher tudo o que ocorre. 


Alguém que sempre agiu muito passivamente pode começar a explodir mais frequentemente com os outros com a intenção de estabelecer limites. A agressividade saudável é importante, mas é possível equilibrar as emoções para que possam ser melhor expressadas.


Indicadores sistêmicos


Sabe aquela depressão que toda a família tem? Alguns sintomas físicos ou emocionais que vão se repetindo ao longo de gerações podem simbolizar problemas sistêmicos. E unindo todos os outros indicadores, todo esse excesso pode nem ter relação com você, mas sim ser fruto de sentimentos adotados de algum outro lugar ou pessoa do seu sistema familiar. 


Neste caso, se você já buscou ajuda de alguns profissionais, mas não obteve resultado, pode ser que uma psicoterapia na visão sistêmica ou constelação familiar lhe ajude de forma mais efetiva.


Como melhorar a saúde mental?


Buscar ajuda profissional é sempre a melhor opção quando o assunto é saúde mental. O apoio de um especialista é necessário quando você, mesmo sozinha (o), buscou acolher suas emoções mas não teve êxito. Alguns acreditam que apenas ler livros ou ver vídeos sobre o tema é suficiente. Certamente pode te ajudar nas percepções, mas há um limite.


Principalmente quando se trata de problemas sistêmicos ou traumáticos, a ajuda de um profissional específico ou que seja hábil em ambas é essencial. Como psicóloga sistêmica, percebo que a visão do sistema como um todo, junto aos conhecimentos de traumas e experiência somática, auxiliam em um olhar mais integral dos meus clientes.


Nem tudo é proveniente de assuntos não resolvidos com família de origem ou lealdades inconscientes até para repetir um sintoma. Mas, se for o caso, o olhar sistêmico é fundamental! 


Contudo, alguns traumas que são vividos ao longo da vida, inclusive no próprio nascimento, podem desencadear uma série de problemas que vão dificultar que a saúde mental esteja em equilíbrio. Dessa maneira, precisam de espaço para serem liberados do corpo. Em muitos casos, todas as questões anteriores atuam juntas, o que torna-se ainda mais fundamental a busca do profissional capacitado.


Ou seja, o primeiro passo é que você deve sempre perceber que o natural da vida é fluido e leve, e se o seu cotidiano traz a vivência contrária, é preciso acolher e buscar a ajuda mais apropriada. 


Maria Cristina Gomes

Psicóloga

mariacristinapsi@yahoo.com.br


Texto originalmente publicado em www.personare.com.br