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sexta-feira, 18 de novembro de 2022

This Is Us - Olhando para o passado e ressignificando no presente

A aclamada série This is Us pode trazer boas reflexões sobre as nossas relações



A série This is Us vem fazendo sucesso mundial desde 2016, quando estreou no canal NBC, dos Estados Unidos. A última temporada foi exibida no dia 24 de maio deste ano, após 6 temporadas aclamadas. Recentemente, voltou à cena estreando na TV aberta. 

Agora, mais pessoas serão tocadas pelos dramas e conflitos da família Pearson, que têm a história descrita sempre na perspectiva de três tempos diferentes. 

Ao longo da série, os espectadores serão tocados por vários temas atuais, contando com alternância das perspectivas entre os membros da família. Desta forma, a série permite que o espectador acompanhe o desenrolar de cada personagem e a forma como as vivências do passado de cada um vai afetando o presente e até mesmo o futuro deles.


This is Us e a família comum


Talvez o que mais aproxime as pessoas desta série é a forma como ela retrata as questões e dramas do cotidiano de uma família comum. Nada de “família margarina” por aqui. Todos os personagens de This Is Us passam por altos e baixos e expõem seus dramas pessoais e familiares o tempo todo. 

Um casal com muitas diferenças se une e busca construir uma família com filhos. E nesta história de ganhos, perdas, doenças, saúde, exclusão, inclusão, união, separação, várias dicotomias vão se apresentando no caminho.


O perigo da perfeição


O destaque vai para o personagem que parece ser o mais bem resolvido, mas também é o que traz fantasmas bem complexos: Randall, o filho que foi adotado logo na maternidade. É o que mantém a relação de família mais bem construída, com a namorada que conhece desde a juventude. 

Ambos constroem juntos uma família com diversidade e aceitação. Randall aparenta ser o mais ponderado e prestativo, sempre disposto a ajudar. No entanto, ao longo da série, vamos percebendo as nuances deste personagem. Ele vai em busca da família de origem? Sente falta dela apesar de ter sido adotado ainda bebê? 

É interessante refletir sobre a postura de perfeição que ele carrega e o peso que isto traz ao personagem. Aos poucos, Randall vai se mostrando frágil e vulnerável como os outros personagens de This Is Us e tem a oportunidade de atravessar grandes desafios sempre contando com a ajuda da mulher incrível ao lado dele. 


Olhando para o passado e entendendo o futuro


A ideia da série de transitar pelo tempo dos personagens em etapas diferentes da vida é um dos fatores que torna This is Us tão interessante. Com isso, acompanhamos o drama de um personagem do início ao fim em alguns momentos em um mesmo episódio. 

No presente, é possível ir traçando a linha do tempo junto ao apresentado na série e com isso entendendo melhor certos padrões de comportamentos e atitudes que ocorrem no momento atual.

Temas complexos como a morte de um filho, adoção, morte do cônjuge, ausência do pai, conflitos com a mãe, relação entre irmãos, autoestima, e o impacto das doenças na família são visitados pela série. 

Ao acompanhar a família Pearson, vamos compreendendo como cada acontecimento vai moldando cada um dos personagens de forma singular. E isso nos traz reflexões para nossos próprios padrões familiares.


Traumas que marcam uma vida


A morte de um membro querido sempre é marcante, bem como as separações, exclusões e rompimentos. Os personagens passam por alguns lutos ao longo da série. Isto nos faz refletir o quanto somos marcados por acontecimentos traumáticos do passado ou mesmo no presente. 

É importante reconhecer as marcas e o efeito que elas provocam. Alguns, inclusive, com sintomas físicos. Em This is Us, os personagens buscam o apoio sempre dentro da família e com as pessoas próximas. 

No entanto, é importante saber o momento certo de buscar ajuda profissional. Mesmo que racionalmente seja possível entender o que ocorreu, o corpo pode guardar as marcas e manifestar as emoções escondidas no inconsciente.


Refletindo sobre nossa própria história


Na visão sistêmica, percebemos muito constantemente processos repetitivos nas famílias. Fatos positivos ou negativos são re-vivenciados em nossa história e com isso temos a chance de ressignificá-los, caso sejam muito dolorosos. 

Alguns acontecimentos da infância certamente podem marcar toda uma jornada. Porém, a vida também traz oportunidades para que, ao topar com os fantasmas do passado, seja possível fazer uma releitura do que ocorreu e até mesmo dar um novo significado. 

Todos os personagens de This Is Us vão enfrentar seus fantasmas em algum momento. É bonito perceber como cada um vai encontrando o recurso necessário para superar os desafios. Se há algo em comum entre eles, são os relacionamentos que cultivam ao longo da vida. 

Dentro da nossa realidade, é de extrema importância perceber as repetições. São elas que sinalizam que algo precisa ser ajustado na postura interna. A mesma forma de se relacionar e o mesmo padrão de comportamento, por exemplo, podem ser sinais de que estamos sendo leais a algo do nosso sistema familiar. 

Uma psicoterapia com a visão sistêmica ou a utilização de técnicas como a constelação familiar podem ajudar a trazer para a consciência o que de outra forma não seria percebido. Afinal, não assistimos à nossa vida passar diante da TV para ter clareza do que se passa em nosso íntimo. Com os personagens é sempre mais fácil. 


A importância das relações


Os protagonistas, a família Pearson, têm histórias tocantes. No entanto, nenhuma delas seria possível sem os “coadjuvantes”. A série é plena em mostrar a importância de se manter boas relações durante a vida. Seja dentro da família, pais, irmãos, mas também os amores e amizades. 

É lindo como todos ao redor se tornam recursos para nosso protagonistas em muitos momentos avançarem e superarem os desafios. Isso só reforça a importância de cultivarmos relações saudáveis e termos por perto pessoas nas quais podemos confiar. 

Mesmo dentro da família de origem, com os desafios e conflitos enfrentados, todos acabam encontrando uma maneira de se reconectar e olhar para o essencial. Deixam de lado as diferenças de opinião e passam a respeitar a forma que cada um adota de ver a vida. 

Este certamente é um grande exercício para todos no cotidiano. Olhar para o que é essencial, o que realmente importa naquela relação, e utilizar as diferenças para somar e crescer e não para subtrair algo do relacionamento. 

Que a possibilidade de acompanhar uma série sobre a família seja uma oportunidade de refletirmos sobre as escolhas do dia a dia e como nutrimos diariamente nossas próprias relações. 


Publicado originalmente em www.personare.com.br



terça-feira, 29 de março de 2022

Filme no ritmo do coração e uma reflexão sobre nosso lugar na família



No ritmo do coração, filme de 2021 disponível na Amazon Prime vídeo, foi o ganhador do oscar de melhor filme e ator principal no último domingo. 


De forma leve e descontraída o tema da lealdade familiar é central! Numa família de deficientes auditivos só a filha caçula nasceu sem a deficiência... Ela acaba sendo a mediadora entre a família e o mundo e se depara com um momento de seguir o sonho de ser cantora ou permanecer neste lugar junto a família.


Vale a pena assistir e refletir sobre os lugares que nos colocam (e que sustentamos) e nos questionar: será que somos tão essenciais assim? Será que permanecer no lugar onde fomos colocados também não é se agarrar à segurança do conhecido? Será que não criamos/mantemos um motivo nobre para evitar os desafios (e o medo) de seguir um caminho diferente?


Claro que o filme é agridoce em muitos aspectos diferente da dureza da realidade que nos apresenta...Mas mesmo diante de uma dura realidade podemos ousar buscar um caminho próprio e se reencontrar com seu próprio lugar. 


E mesmo que não queira pensar em nada disso aproveite a sensação leve que fica no final do filme.... em meio a filmes e séries muitas vezes densos e pesados, aproveite este para só curtir a experiência 🙃


#filmeoscar #noritmodocoracao 

#autoestima #autocuidado #lealdades #respeitardiferencas #autorresponsabilidade #autoconhecimento #autoconsciencia #autoaceitação #empoderese #nutrasenasraizes #tornatequemtués #seja #psicoterapiaonline #oseulugar #mudancadepostura #tomedecisoes #invistaemvocê


Maria Cristina Gomes 

✔Psicóloga sistêmica e consteladora familiar

✔Atendimentos online e presencial

Email: mariacristinapsi@yahoo.com.br

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Os efeitos de uma criança estar no meio dos pais

 


"Também compreendi que a tarefa de alegrar o matrimônio dos dois era impossível. Essa conclusão chegou com 40 anos de atraso. Quando minha vida havia sido preenchida por esse objetivo." Luiz Schwarcz - O Ar que me falta


Os efeitos são pesados para as crianças que se sentem responsáveis pela união dos pais. Na verdade todas tem em algum nível a ideia em seu imaginário que os pais precisam ficar juntos e algumas assumem a responsabilidade por isso. Se percebem brigas constantes podem fazer sintomas (seja na saúde ou na escola) para capturar aquele conflito e os olhares se voltem para ela. Se os adultos não estão atentos eles podem permitir e até endossar este lugar para as crianças. 


Mas o fato que quando adultos é preciso rever... A criança pode ter suas fantasias e nem tem suficiente força ainda para questionar o ambiente, estar consciente para estar no seu lugar. Mas o adulto pode e deve se fazer este questionamento a medida que percebe os emaranhados que estar fora do lugar traz para sua própria vida. Não é uma regra, faça isso ou faça aquilo. Mas perceber o quanto a vida flui e os efeitos em nós de mantermos os lugares e posturas de sempre.


E é com esse olhar que o autor vai fazendo suas reflexões ao longo de sua autobiografia.


Seguimos refletindo...


Maria Cristina Gomes 

✔Psicóloga sistêmica

✔Atendimentos online e presencial

Email: mariacristinapsi@yahoo.com.br


#visãosistêmica #acolheopassado #ampliaoolhar #lidarcomarealidade #concordância #oamoreasolucao  #atitude #autoconhecimento #autoconsciência #autorresponsabilidade #comeceemvoce  #leissistemicas #efeitosdaexclusão #relacaodecasal #paisefilhos #posturasistêmica #autocuidado  #tornatequemtues

sexta-feira, 25 de junho de 2021

As lealdades inconscientes nos impedem de seguir com leveza

 

Joan Garriga fala um pouco de lealdades inconscientes em seu livro Bailando juntos: "As vezes acontece uma forma de lealdade pelo sofrimento que não nos permite assumir nosso próprio bem-estar devido a essa fidelidade mal interpretada para com outros membros do sistema que padeceram."


Neurose de classe, sindrome de aniversário, lealdades inconscientes, amor cego, todos estes termos que compõem a visão sistêmica estão relacionados aos dizeres do Garriga. Inconscientemente adotamos uma postura que ser leal ou pertencer implica em fazer igual ou não se permitir ir mais longe dos que vieram antes. 


No momento em que vivemos isto se torna especialmente relevante, pois até mesmo para pertencer ao grupo maior que sofre perdas e passa por dificuldades de toda ordem, estar bem e em paz é muitas vezes ter que sustentar uma consciência pesada. Mas é assim que avançamos. 


A consciência pesada, uma certa culpa, faz parte no processo de ir além... E com isso todos que vieram antes se alegram com a evolução do sistema. E mesmo fazendo diferente ainda iremos pertencer!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A eterna busca pelo reconhecimento e como isto impacta na sua vida financeira e profissional



 Prosperidade é um assunto que está sempre entre os mais buscados no mundo virtual. Todos querem prosperar e ser feliz. E geralmente, o primeiro pensamento é ter dinheiro para ter uma vida tranquila e sem preocupações. Contudo, muitos trabalham em excesso e não sentem que recebem o que merecem ou sempre reclamam que não têm dinheiro suficiente. Existem algumas dinâmicas ocultas que podem impedir a prosperidade, e especialmente a forma como encaramos o trabalho pode exercer grande influência na forma como o dinheiro circula pela nossa vida. Vamos entender melhor a visão da constelação familiar sobre este tema.


Leis sistêmicas


Primeiramente nos lembramos das leis sistêmicas que atuam sobre todos nós, mesmo que não concordem ou reconheçam-nas. A lei do pertencimento, da ordem e do equilíbrio. Na lei do pertencimento quem pertence não pode ser excluído, pois caso seja, retornará posteriormente ao sistema por sintoma ou crise em algum outro descendente. Na lei da ordem ou hierarquia, quem vem antes tem prioridade pois chegou primeiro ao sistema, e por isso é maior. Quem vem antes dá e quem vem depois recebe. Na lei do equilíbrio, em relacionamentos sociais e afetivos deve haver troca e equilíbrio entre o dar e receber nas relações. 


Estar a serviço da vida


Na visão das constelações a relação com o trabalho tem relação com o relacionamento com a mãe. Estou a serviço de algo, assim como a mãe se colocou a serviço ao dar a luz a você. Se a postura diante da mãe é de crítica você pode ter dificuldades de dar tudo de si no trabalho. Para sentir que estamos a serviço é preciso estar na ordem. Reconhecer que a mãe é maior e que deu tudo que podia dentro de suas possibilidades. Tomar a mãe, é acolher com gratidão a vida que veio através dela e seguir adiante. A postura de olhar para o passado carregado de mágoas e ressentimentos pode impedir que a vida flue para a prosperidade. 


Dinheiro ou Reconhecimento como moeda de troca


Dinheiro não é energia, é dinheiro mesmo. Muitas crenças equivocadas em relação ao dinheiro podem impedir a prosperidade financeira. Mas o fato é que é uma moeda de troca para um serviço prestado. Se faço este serviço com amor, inteireza e gratidão terei a contrapartida. 


Quando há ajuda profissional é importante ter um preço para o trabalho. Este preço é uma troca pela experiência, vivência, investimento. Receber dá dignidade ao outro que adquiri o serviço. Muitos profissionais de ajuda principalmente em áreas terapêuticas têm dificuldade de cobrar. Isso deve-se a crenças limitantes em relação ao autovalor e ao dinheiro, mas também, a moeda de troca equivocada. No fundo desejam reconhecimento pelo papel que desempenham e inconscientemente esta pode ser a forma de pagamento que almejam. Mas o aplauso e a crítica são enganadores. Diz mais do outro do que de si. São as expectativas do outro que para ele são ou não atendidas. Caso se apoie em receber apenas isto que o outro oferece, você perde seu poder pessoal.


Onde está o reconhecimento


Se o reconhecimento é sua moeda de troca, então você já têm o que acha que precisa. Assim, o dinheiro e muitas vezes até o trabalho não permanecem por muito tempo. O mais importante é preencher um vazio a partir do que o outro oferece. Essa necessidade é infantil. A criança precisa ser reconhecida o tempo todo, mas para adultos isso não funciona mais. Geralmente há críticas e faltas em relação à mãe. Ela pode ter sido ausente, ou mesmo uma mãe muito crítica. Não é fácil crescer em um ambiente crítico e hostil. Mas ao se tornar adulto você pode ressignificar. Caso não consiga fazer por si mesmo pode optar por ajuda profissional. A psicoterapia na visão sistêmica pode te abrir um novo olhar sobre sua postura diante de sua família de origem. Pois este reconhecimento que talvez você queria da mamãe ou da família talvez não seja possível. Ele não pode mais vir do outro. Afinal, ele está dentro de você e só você pode se reconectar a ele novamente. 


Ninguém diz o valor de quem você é. O valor vem de suas raízes, da sua fonte, de quem você é. Isso é que te faz singular. A sua origem, só você tem. E é isso que lhe dá um valor único, da forma que aprendeu no seu sistema, da conexão com seus pais. Reconhecer seu autovalor e o valor do seu sistema de origem com gratidão, independente dos erros e acertos que ocorreram ali, é passaporte para uma vida leve e de prosperidade. 


sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Ajuda ou Autossacrifício? Como ajudar de forma efetiva e respeitosa sem nos emaranhar nos destinos dos outros.



O ano de 2020 nos trouxe uma pandemia e com ela grandes desafios. Algo que ganhou grandes proporções foi o processo de ajuda em todos os níveis. Tanto profissionalmente quanto pessoalmente muitos se mobilizaram para exercer a ajuda em algum nível em seu contexto. Contudo, muitos também adoeceram mais e tomaram para si excesso de responsabilidades para com os outros. Assim, é importante refletir sobre o processo da ajuda à luz das constelações familiares. E como ela pode ser mais efetiva tanto para o ajudante quando para o ajudado quando é feita do lugar certo.


O complexo de salvador


Muitos que escolhem a profissão de ajudante seja em qual área for carregam consigo algum complexo de salvador. Geralmente já estão fora de lugar em sua família de origem e levam para a profissão esta falta de lugar. É como se consertar algo fora fosse arrumar aquilo que está dentro. 


Saber nosso lugar em nossa família de origem é fundamental. Para as constelações familiares existem algumas leis sistêmicas que atuam, mesmo que não tenhamos conhecimento delas. A lei da ordem ou hierarquia é a que preserva a grandeza e lugar de cada um no sistema. Quem vêm antes é maior e têm prioridade e deve ser honrado deste lugar. Os problemas começam quando os descendentes querem mudar o destino dos que vieram antes deles. São filhos que querem salvar ou cuidar de algum ancestral assumindo lugares que não são seus. Esse processo na maioria das vezes é inconsciente apesar de algumas vezes ser até perceptível nas atitudes conscientes. Filhos adultos que deixam de viver suas próprias vidas para se voltar para a vida de um dos pais ou, às vezes, avós. Mulheres que abdicam de ter uma família nuclear e filhos para cuidar da família de origem seria um exemplo comum. Então, aquele que sempre se sacrificou de alguma forma pela família pode seguir fazendo o mesmo na profissão escolhida.


Por outro lado, alimentar mágoas e julgamentos pelos que vieram antes pode gerar uma culpa inconsciente que pode ser transformada em expiação e autossacrifício. Por diversos motivos você acredita que ajudando o outro possa aliviar a culpa de ser desleal ou estar agindo contra alguma lei sistêmica. Como é um processo inconsciente na maioria dos casos, apenas quando chega um sintoma físico ou mental o sujeito para refletir sobre seu lugar no mundo. Além disso, outro  dificultador é que o ajudante nem sempre está disposto a pedir ajuda já que é ele quem está neste lugar, por isso um sintoma precisa emergir para que isso aconteça.


Ordens da Ajuda


Bert Hellinger propôs em seu livro Ordens da Ajuda, algumas diretrizes a serem seguidas e compreendidas por aqueles que querem ser ajudantes. Contudo, é um caminho de autorreflexão para todas as pessoas pois constantemente, nas famílias e socialmente, nos deparamos com o imenso desejo de ajudar ou fazer algo pelo outro. É uma reflexão a partir de um olhar sistêmico e amplo.


A primeira ordem da ajuda diz que deve-se dar o que se tem e tomar apenas o necessário. Isso requer muita humildade para reconhecer as próprias limitações, especialmente para os ajudantes profissionais. Se o próprio ajudante ainda não encontrou seu próprio lugar em seu sistema de origem certamente terá dificuldades em auxiliar o outro de forma livre. Neste caso se a lei da ordem está sendo respeitada certamente o ajudante está no lugar e consegue levar uma ajuda mais efetiva reconhecendo o outro como adulto e grande assim como ele.


Na segunda ordem devemos nos submeter às circunstâncias externas e internas e respeitar o destino de cada um. A intervenção e apoio é na medida do necessário e permitido. O que ocorre geralmente, que representa desordem neste caso, é que o ajudante vê o destino do outro como pesado, difícil e quer mudar, mesmo que o outro não precise ou queira, para seu próprio alívio por não conseguir suportar o destino do outro. É como uma criança que ajuda sem medidas apenas para não ver o outro infeliz. A ajuda muitas vezes, neste caso, serve mais para o ajudante do que para o ajudado. 


Na terceira ordem, o ajudante se coloca como adulto perante um outro adulto. Assim não assume papéis substitutivos, geralmente parentais. A desordem aqui é permitir que um adulto haja como uma criança pedindo algo aos seus pais, e que o ajudante trate o cliente, (amigo ou familiar) como uma criança, para poupá-lo de algo que ele mesmo precisa e deve carregar - a responsabilidade e as consequências. Há um desrespeito pela lei do equilíbrio que ocorre no mundo dos adultos. Se o outro é adulto ele tem força e dignidade tanto quanto eu e isto precisa ser levado em consideração. 


Para a quarta ordem da ajuda é fundamental a visão sistêmica olhando para o outro como parte de um sistema e dar um lugar a todos os excluídos do seu sistema. Não estou somente a serviço do meu cliente, mas sim de todo o sistema familiar a que ela pertence, em especial aqueles que ela quer excluir. No caso de amigos e familiares é reconhecer que todos fazem parte de um grande sistema e inconsciente familiar e que cada um possui suas dores e lealdades que os movem na vida. É preciso evitar julgamentos e manter a empatia sistêmica. Esta ordem está em ressonância com a lei do pertencimento onde ninguém pode ser excluído, todos fazem parte.


A quinta ordem complementa a quarta pois é preciso evitar o julgamento e condenação daquilo que é a dor do outro. Estar isento de julgamentos morais é essencial para uma ajuda mais autêntica. Acolher a cada um como ele é, por mais que ele seja diferente de mim. Desordem seria o julgamento dos outros, que geralmente é uma condenação, e a indignação moral ligada a isso. Quem realmente ajuda, não julga.


E por último estar de acordo com a realidade que se apresenta, sem reclamar ou lastimar. Muitos suportam o destino alheio e querem mudá-lo. Com isso, podem assumir algo pelo outro desrespeitando a capacidade e grandeza do outro para lidar com seu próprio destino. 



Ajuda que ajuda


A ajuda efetiva é aquela que sabe olhar para o outro e seu destino com respeito e dignidade. Que inclui tudo que o outro traz, mesmo que seja diferente ou aparentemente doloroso. Profissionalmente, é preciso acolher e não desejar eliminar nada para o outro, pois isso ele mesmo precisa reconhecer e fazer conforme seu próprio sentimento. Mas sim, ampliar seu olhar, e fornecer alguma ferramenta ou recurso que o auxilie em seu processo, mas sem fazer por ele. 


No âmbito pessoal olhar para o outro com dignidade e não com pena. A pena reduz o outro a um patamar inferior. Contudo, se olharmos para a mãe, pai, irmão, amigo ou seja lá quem for, e vemos a força que reside em seu interior e que vêm de todo o seu sistema ancestral, transmitimos a essa pessoa, força e autoconfiança em seus próprios recursos. 


É importante estar atento aos sinais do corpo e da alma ou inconsciente. Pois, em sonhos ou sintomas, se a ajuda está deslocada e você está tomando um lugar que não é seu, certamente seu inconsciente irá te sinalizar de alguma forma. E então se lembrar daquelas recomendações em viagens de avião que sempre repetem que é preciso colocar primeiro a máscara de oxigênio em você para depois colocar no outro. 


Publicado em www.personare.com.br em 12/02/2021.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Era uma vez um sonho - Porque traumas e dores do passado não precisam definir como será o futuro

 


O filme Era uma vez um sonho (HillBilly Elegy) que estreou no catálogo da Netflix em Novembro/2020 traz alguns temas familiares abordados de maneira dura e realista. O filme baseado em um livro de uma história real de J.D Vance têm recebido críticas por focar no drama e deixar de lado as questões mais culturais, sociais e até políticas que parecem ser descritas no livro. Eu não li o livro então não posso dizer, mas penso que um filme nunca poderá ser fidedigno a obra, mas apenas um recorte. E neste caso o foco foi totalmente nos dramas familiares e no dilema do Jovem Vance em seguir com sua vida ou ficar, e quanto a isso cumpre o que se propõe.


Gosto de filme baseado em histórias reais pois torna as questões abordadas mais palpáveis. O enredo do filme não é diferente de outros que já existem, como Castelo de Vidro (2017) também baseado em fatos (video onde falo deste filme https://youtu.be/1LhbAyOOzsI) Justamente por conterem questões sistêmicas é algo comum nas mais diversas famílias. Interessante como filmes assim causam comoção e reflexão. As pessoas conseguem ter empatia com os personagens mesmo aqueles mais difíceis como a mãe e avó de Vance. Isso porque o roteirista teve o cuidado de ir mostrando que um comportamento de hoje está relacionado a eventos passados que por sua vez também tem origem em outros eventos e por aí vai. Ou seja, visão sistêmica! E penso que nos faz ampliar o olhar sobre rótulos como mãe tóxica e família desestruturada que são tão repetidos. Algumas falas são perfeitas para mostrar como rejeitar/odiar algo faz com que você reproduza o comportamento sem perceber. É o caso da filha de Bev, Lindsay, que em uma briga com sua mãe diz que nunca terá filhos para fazer como ela faz, e claro acaba tendo três filhos e em dado momento aparece gritando com as crianças devido às suas próprias frustrações. 


Mas tudo gira em torno do Jovem Vance, e se ele repetirá o ciclo de dor e fracasso trazido ao longo da família ou conseguirá fazer diferente. Há dois pontos de virada importante na vida do JD. Quando a avó o assume e ele se revolta com a postura da avó, dentre muitas brigas pesadas e diálogos difíceis houve um momento em que o garoto entendeu do que se tratava. Quando ela pede comida pois tem que alimentá-lo e deixa para ele a maior parte do que conseguiu. Ali ele age e entende que não precisava ficar esperando amor e reconhecimento. Talvez não porque ela não queria dar, mas não sabia. A forma como sabia era sendo dura e cobrando dele uma postura diferente na vida. Ali ele entendeu que ela fazia de tudo para ele ter um futuro diferente do que ela e sua filha tivera. Ela sabia que para ele podia ser mais leve, pois ele tinha recursos que ela não tinha. E foi quando ele seguiu. 


Contudo, ele seguiu e parece ter rompido de alguma forma. Como se quisesse esquecer o passado e apenas seguir em frente. Então, como aquilo que rejeitamos nos aprisiona, o passado bate à porta e ele de novo se vê no dilema entre ficar ou seguir. A mãe com overdose clama por cuidado. E nesse retorno ele também vai se deparando com seus demônios e lembranças internas e reconstruindo o caminho que o trouxe até ali. Mais uma fala brilhante quando sua irmã diz que se ele não perdoar não conseguirá se libertar do que foi. E quando ele percebe que de novo precisa tomar a decisão que talvez quando jovem a avó o estimulou: Seguir sua vida ou ficar emaranhado em lugares que não lhe pertenciam e repetir uma história de dor e sofrimento. Ele decide que não pode ser o salvador!! Pois seu autossacrifício poderia até resolver provisoriamente o problema, mas seria ineficaz a longo prazo pois ele também seria infeliz. E então ele toma a decisão mais consciente de tudo que lhe trouxe até aquele momento e consegue seguir, sem romper, mas agora com seu legado no coração. Não por acaso vai contando sobre as histórias da família para a namorada como se agora concordasse que tudo que foi fez dele quem ele é e lhe dá a chance de fazer diferente, por ele e por todo o futuro sistema. 


Sim as dores e traumas foram reais e certamente deixaram marcas, mas olhando, curando, compreendendo e acolhendo a realidade como foi, é possível seguir em frente e ter um destino mais leve do que as gerações anteriores. Assim foi para JD Vance e assim é na vida!