segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Era uma vez um sonho - Porque traumas e dores do passado não precisam definir como será o futuro

 


O filme Era uma vez um sonho (HillBilly Elegy) que estreou no catálogo da Netflix em Novembro/2020 traz alguns temas familiares abordados de maneira dura e realista. O filme baseado em um livro de uma história real de J.D Vance têm recebido críticas por focar no drama e deixar de lado as questões mais culturais, sociais e até políticas que parecem ser descritas no livro. Eu não li o livro então não posso dizer, mas penso que um filme nunca poderá ser fidedigno a obra, mas apenas um recorte. E neste caso o foco foi totalmente nos dramas familiares e no dilema do Jovem Vance em seguir com sua vida ou ficar, e quanto a isso cumpre o que se propõe.


Gosto de filme baseado em histórias reais pois torna as questões abordadas mais palpáveis. O enredo do filme não é diferente de outros que já existem, como Castelo de Vidro (2017) também baseado em fatos (video onde falo deste filme https://youtu.be/1LhbAyOOzsI) Justamente por conterem questões sistêmicas é algo comum nas mais diversas famílias. Interessante como filmes assim causam comoção e reflexão. As pessoas conseguem ter empatia com os personagens mesmo aqueles mais difíceis como a mãe e avó de Vance. Isso porque o roteirista teve o cuidado de ir mostrando que um comportamento de hoje está relacionado a eventos passados que por sua vez também tem origem em outros eventos e por aí vai. Ou seja, visão sistêmica! E penso que nos faz ampliar o olhar sobre rótulos como mãe tóxica e família desestruturada que são tão repetidos. Algumas falas são perfeitas para mostrar como rejeitar/odiar algo faz com que você reproduza o comportamento sem perceber. É o caso da filha de Bev, Lindsay, que em uma briga com sua mãe diz que nunca terá filhos para fazer como ela faz, e claro acaba tendo três filhos e em dado momento aparece gritando com as crianças devido às suas próprias frustrações. 


Mas tudo gira em torno do Jovem Vance, e se ele repetirá o ciclo de dor e fracasso trazido ao longo da família ou conseguirá fazer diferente. Há dois pontos de virada importante na vida do JD. Quando a avó o assume e ele se revolta com a postura da avó, dentre muitas brigas pesadas e diálogos difíceis houve um momento em que o garoto entendeu do que se tratava. Quando ela pede comida pois tem que alimentá-lo e deixa para ele a maior parte do que conseguiu. Ali ele age e entende que não precisava ficar esperando amor e reconhecimento. Talvez não porque ela não queria dar, mas não sabia. A forma como sabia era sendo dura e cobrando dele uma postura diferente na vida. Ali ele entendeu que ela fazia de tudo para ele ter um futuro diferente do que ela e sua filha tivera. Ela sabia que para ele podia ser mais leve, pois ele tinha recursos que ela não tinha. E foi quando ele seguiu. 


Contudo, ele seguiu e parece ter rompido de alguma forma. Como se quisesse esquecer o passado e apenas seguir em frente. Então, como aquilo que rejeitamos nos aprisiona, o passado bate à porta e ele de novo se vê no dilema entre ficar ou seguir. A mãe com overdose clama por cuidado. E nesse retorno ele também vai se deparando com seus demônios e lembranças internas e reconstruindo o caminho que o trouxe até ali. Mais uma fala brilhante quando sua irmã diz que se ele não perdoar não conseguirá se libertar do que foi. E quando ele percebe que de novo precisa tomar a decisão que talvez quando jovem a avó o estimulou: Seguir sua vida ou ficar emaranhado em lugares que não lhe pertenciam e repetir uma história de dor e sofrimento. Ele decide que não pode ser o salvador!! Pois seu autossacrifício poderia até resolver provisoriamente o problema, mas seria ineficaz a longo prazo pois ele também seria infeliz. E então ele toma a decisão mais consciente de tudo que lhe trouxe até aquele momento e consegue seguir, sem romper, mas agora com seu legado no coração. Não por acaso vai contando sobre as histórias da família para a namorada como se agora concordasse que tudo que foi fez dele quem ele é e lhe dá a chance de fazer diferente, por ele e por todo o futuro sistema. 


Sim as dores e traumas foram reais e certamente deixaram marcas, mas olhando, curando, compreendendo e acolhendo a realidade como foi, é possível seguir em frente e ter um destino mais leve do que as gerações anteriores. Assim foi para JD Vance e assim é na vida!  


3 comentários:

Unknown disse...

Obrigada pelo texto, esclarecedor.

Unknown disse...

Assisti ao filme e achei o filme maravilhoso, sua explicação deixa ele ainda mais compreensível. gratidão.

Cristina disse...

Fico sempre feliz em contribuir! ;-)